Indignação

Tenho me perguntado se a indignação constante em nosso país diante alguma possibilidade (tantas vezes levantadas e nem sempre apuradas) de impunidade em crimes na esfera pública seja algo benéfico. Não me agrada a forma cínica com que lidamos com o comportamento alheio onde, via de regra, o outro é sempre um desrespeitador das leis até que se prove o contrário. Como, por se tratar de uma evidente inversão do ônus da prova e não podemos afirmar a inexistência de algo, todos são culpados por padrão.

Alguns podem justificar que o sentimento de indignação é justo, o problema estaria em este não tornar-se ação. Tenho a impressão que este sentimento é a ação e, neste caso, uma ação que termina por aliviar-nos da responsabilidade e permite voltarmos as nossas vidas repletas de pequenas infrações. Não é uma novidade a idéia de que sentimentos podem ser estagnantes, como muitas vezes já escreveram sobre a culpa.

A culpa, carregada pelo sofrimento e acompanhada de uma contrição fruto das nossas tradições católicas é um claro exemplo de sentimento que paralisa. Erramos, sofremos, nos arrependemos fortemente…. e estamos prontos para errar de novo. Talvez nossa indignação passe por processo semelhante.

No entanto, tenho outras questões que acredito devam ser consideradas. No caso da indignação presente nas bocas, nas páginas e telas, ela soa muito mais como constatação que mobilização de forças (mesmo que para um alívio próprio e particular). Parece uma espécie de vigilância ao avesso, para confirmar o erro do outro, que seria igual ou maior que o meu.
Isso denota outro aspecto curioso da nossa indignação que me faz pensar que ela seja sintoma de um problema: o incrível rigor com que demandamos que sejam aplicadas as penas: nunca é suficiente. Quer-se mais, prisões mais duradouras, cárceres mais restritivos. Sofrimento deve ser o motor da justiça, com penas mortais e dolorosas. Esse falta de empatia com os criminosos no entanto não se parece com a hipocrisia dos que querem se considerar santos, nem com o desejo de não se identificar capaz dos mesmos atos (uma reação natural em crimes violentos). Esta forma cruel da desejo de punição parece-me mais relacionada com a indiferença dos que não sabem, eles próprios, o quanto é difícil seguir a lei. Traço de um povo que vive alienado nas pequenas infrações cotidianas e desenvolveu uma relação ambígua com o crime e os criminosos.

Requiém para um link

A Internet é um rico repositório de vestígios digitais formando muitas vezes uma rica biografia de pessoas que não estão mais entre nós. Inevitável, a morte está naturalmente (ou artificalmente) ganhando a atenção on-line.

Por ocasião da tragédia ocorrida no aeroporto de Congonhas, em julho de 2007, a empresa de transporte aéreo envolvida no incidente realizou uma homenagem as vítimas em seu espaço virtual do Second Life. Tratava-se de uma espécie de memorial/vigília on-line. A ação, que servia para prestar homenagem e fornecer informações sobre o acidente, não ficou imune a críticas. Aqueles que discordaram da ação argumentaram baseados na idéia de que o lugar (ou meio) seria inapropriado e o momento, inadequado.

Embora o Second Life não seja exatamente um jogo e sim uma proposta de interface/ambiente 3D, sua relação com entretenimento provocou um desconforto ao vê-lo ligá-lo ao tema da morte real, em particular da tragédia. Mas se por um lado a morte é um tema que promove fortes reações contrárias a sua menção, ela é inerente a existência humana e não há como fazê-la desaparecer da experiência on-line. As referências aos limites de existência a que estamos todos submetidos existem desde os jogos de vídeo-game onde, mesmo que existam muitas “vidas” existem, em contrapartida, muitas mortes e inevitavelmente o fim do jogo. É de se esperar que, a medida que a imersão da experiência on-line se intensifica, mais presente e sofisticada se torne a necessidade de lidar de forma simbólica com a morte e o luto em ambientes da internet. A questão é como está sendo construída esta relação.

Curiosidade mórbida

Ao que tudo indica há um interesse espontâneo pelo tema; existe uma célebre comunidade no Orkut denominada “Profiles de Gente Morta”, que se dedica, como o nome sugere, a encontrar perfis de pessoas que morreram. Apesar da proposta que consta na descrição da página inclua respeito aos falecidos, nem sempre este é manifestado pelos seus membros e alguns comportamentos podem parecer bastante mórbidos. Isto, é claro, não tem a Web como causa senão pela capacidade desta de reunir pessoas com os mesmos interesses, dando visibilidade a um fenômeno que sempre existiu. Não é novidade: a morte foi, e ainda é, motor de muitas notícias rentáveis para a imprensa convencional e a mídia digital. Mas isto somente porque as pessoas precisam expressar-se sobre a morte, principalmente quando as atinge pessoalmente ou na forma de uma tragédia de comoção pública.

Homenagem póstuma

Em março de 2006, Elliott Malkin criou o protótipo que chamou de Cemitério 2.0, que propunha uma engenhosa conexão com a lápide do ente querido. No site, há links para árvore genealógica, fotos no Flickr e perfil no Facebook do seu avô, a quem prestou desta forma uma homenagem. A idéia, que repercutiu na época pelo aspecto curioso e pitoresco, foi aproveitada em sua premissa por uma iniciativa menos revolucionária e com possibilidades comerciais: o Respectance.

Chamado ironicamente de “MySpace de Gente Morta“, o apelido acaba por descrever bem sua função: criar redes sociais para relembrar e homenagear entes queridos. A escolha do nome do domínio mostra que existe uma tentativa real de distanciar-se da idéia que as referências aos falecidos feitas na Web ainda costumam ter, sendo associadas a morbidez ou humor negro. Sinal de que existe gente ao menos tentando lidar com a morte de forma séria na Web e que identificou uma necessidade (e também um possível mercado já que conseguiu levantar $1.5 milhões em fundos). este aspecto comercial não traz, em si, nenhum demérito, apenas a constatação de que os serviços continuam migrando para Internet, a medida que ela faz cada vez mais parte de nossas vidas.

Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um blog.

Se o luto e a homenagem póstuma parece que começam a ser incorporados a vida on-line, a grande maioria ainda está longe de saber lidar com o fim de sua própria existência (real e virtual). Raros nunca ouviram a afirmação de que qualquer pessoa, antes de morrer, deveria “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. Não é muito difícil perceber que há um aspecto simbólico similar nestas três ações: elas pretensamente devem produzir algo que irá durar mais do que quem a realizou. Isto porque é um desejo legitimamente humano querer deixar um legado e uma forma de imortalizar-se. Parte deste sentimento move aqueles que escrevem ou produzem uma obra na Web tanto quanto nos meios convencionais. Há, no entanto uma diferença marcante na Web, em particular nos blogs: seu aspecto altamente interativo e constantemente atualizado. A obra de um escritor on-line, seu legado, quando interrompida por sua morte deixa uma evidencia exposta na evidente paralisação de uma estrutura que se caracteriza por ser mutável. Um blog, mesmo que permaneça on-line, “morre” com seu criador no sentido que sua interatividade e evolução cessam.

Alguns sites desaparecerão ao final de seus contratos de hospedagem, outros permanecerão indefinidamente em serviços gratuitos ou de arquivamento de páginas antigas. São possíveis destinos inclusive para estas mesmas palavras que vocês lêem agora. Para aqueles que querem escolher precisamente qual será o ponto final de sua autobiografia, foi lançado o serviço You Depart, que armazena até 5Gb de dados (emails, fotos, vídeos) para serem enviados aos entes queridos após sua morte. Ideal também para quem não quer levar segredos para o túmulo sua princpal função é fornecer informações privadas que devem ser transferidas aos familiares, como senhas, instruções, etc. Tudo demonstra o fato que a Internet vêm transformando-se de um antigo território marcado pelas relações instantâneas e imediatas para um grande biógrafo, que registra vários passos de nossas vidas ainda que de forma fragmentada, para um possível resgate dos arqueólogos do amanhã.

Qual será o seu legado digital?