Paulo Duarte

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Hulk vai a Terapia Comportamental

Analisar personagens de ficção nos permite certas considerações que são eticamente complicadas quando nos referimos à pessoas reais. Por isso decidi usar Bruce Banner como exemplo para ilustar algumas coisas sobre terapia de controle de raiva.

Nosso paciente chega com uma queixa específica: tem crises de raiva em que perde o controle de si mesmo, vira “um monstro” e teme vir a machucar ou ferir pessoas.

Primeira coisa que podemos concluir com o paciente Sr. Banner é que certas recomendações feitas por alguns livros de auto-ajuda e certas terapias não funciona a contento: expressar sua raiva. Segundo pesquisas, estimular terapeuticamente a catarse (quando os sentimento são expressados de forma intensa, como por exemplo uma explosão de raiva reprimida) não se mostrou eficaz em fazer desaparecer comportamentos agressivos, pelo contrário: quem expressa sua raiva através de comportamentos “raivosos” parece ter a tedência a voltar a repetir esses comportamentos no futuro. Nenhuma novidade, nosso paciente têm “colocado para fora” toda sua agressividade e o quadro só parece piorar a cada década.

Outro aspecto, mais difícil de admitir para o paciente, é o ganho secundário que ele tem ao expressar um comportamento do qual ele se queixa e que isso é um dos motivos dele continuar sendo repetido. Ora, por mais que o Sr. Bruce Bunner venha ao consultório queixar-se cheio de culpa por virar Hulk depois de qualquer engarrafamentinho de 4 horas sabemos a verdade: existem vantagens em virar Hulk que incluem, também, salvar a garota e bater nos bandidos. Bruce precisa reconhecê-las e identificar esses motivos apesar da culpa que sente depois que de transformar-se.

Uma terapia comportamental parece a ideal para um paciente como Bruce, que é um cientista e possivelmente preferirá uma abordagem com um discurso científico, além do que terapias mais clássicas como a psicanálise poderiam resultar em um psicanalista dividido ao meio, depois da aparição do Hulk por causa de um insight ou alguma frustação bem pontuada pelo analista. Claro, poderia-se tentar uma abordagem menos ortodoxa e existem psicanalistas competentes para tal. No entanto, eu, particularmente, não ficaria de costas com Bruce Banner deitado ao divâ.

O processo terapêutico de Bruce deveria enfocar outras possibilidades de comportamentos para que ele lidasse com os sentimentos de raiva. Novos comportamentos devidamente reforçados diminuiriam os episódios de explosão de raiva. Ele poderia tirar vantagem também da arte-terapia onde poderia expressar-se de forma criativa (deveria usar tinta verde?). E, talvez, a médio/longo prazo, pensar em desenvolver em Bruce formas de obter os benefícios que Hulk lhe proporcionava no passado sem provocar a destruição em massa que causa hoje.

Essas considerações são obviamente ficcionais e anedóticas, mas nem por isso deixam de representar certos conceitos de uma psicoterapia comportamental. Se até Hulk pode fazer, por que não você?

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